Após cinco dias, Rio Acre sai da cota de transbordo na capital, mas famílias seguem em abrigos

Rio Acre sai da cota de transbordo em Rio Branco Após cinco dias de transbordamento, o Rio Acre ficou abaixo da cota de 14 metros, considerada de alagação, n...

Após cinco dias, Rio Acre sai da cota de transbordo na capital, mas famílias seguem em abrigos
Após cinco dias, Rio Acre sai da cota de transbordo na capital, mas famílias seguem em abrigos (Foto: Reprodução)

Rio Acre sai da cota de transbordo em Rio Branco Após cinco dias de transbordamento, o Rio Acre ficou abaixo da cota de 14 metros, considerada de alagação, na manhã desta quinta-feira (1º) na capital. O nível marcou 13,94 metros por volta das 5h48 e segue em vazante. Às 15h, já estava em 13,50 metros, que é a cota de alerta. Rio Branco vive, em pleno mês de dezembro, um cenário que não se repetia há 50 anos para a época: alagações provocadas por fortes chuvas registradas na última semana que fizeram igarapés urbanos e o Rio Acre transbordarem no sábado (27). A situação atípica envolvendo o principal manancial do estado atingiu mais de 20 mil pessoas. 📲 Participe do canal do g1 AC no WhatsApp Apesar da redução, pelo menos 53 famílias que precisaram deixar suas casas por conta das águas seguem em pelo menos cinco abrigos. Segundo a Defesa Civil Municipal, o retorno só é iniciado a partir da marca de 12 metros, que é a margem de segurança. Na quarta (31), começaram a retornar somente moradores de áreas atingidas por enxurradas de igarapés. "As famílias que estão [em abrigos] pelo Rio Acre, elas permanecem nos abrigos. Quem quiser sair, que já aconteceu isso, eles assinam um termo de responsabilidade e saem. Abrigo não é prisão. Nós temos ainda 53 famílias nos abrigos, e são cinco abrigos que nós estamos mantendo ainda ativos", explicou o coronel Cláudio Falcão, coordenador da Defesa Civil da capital. Rio Acre voltou a ficar abaixo de 14 metros após cinco dias Reprodução/Prefeitura de Rio Branco LEIA MAIS: Contato com água de enchentes aumenta risco de doenças, alerta infectologista Por conta de cheias, Acre decreta situação de emergência em cinco municípios Com sistema em teste, Defesa Civil diz evitar disparo amplo de alertas durante enchente em Rio Branco: 'Vai trazer pânico' Após cheia que atingiu mais de 20 mil pessoas, ruas de Rio Branco são tomadas por lama e lixo: 'Prejuízo' Confira as medições do Rio Acre nesta quinta: 13,94 - 5h48 13,80 - 9h 13,67 - 12h 13,50 - 15h Os moradores que saíram de casa por conta da cheia seguem nos seguintes abrigos: Escola Maria Lúcia - Bairro Morada do Sol Escola Georgete Eluan Kalume - Bairro Cadeia Velha Escola Marilda Gouveia Viana - Bairro João Eduardo I Escola Estadual Leôncio de Carvalho (abrigo indígena) Escola Ayrton Senna da Silva As famílias recebem nos abrigos acolhimento, alimentação, atendimento em saúde, acompanhamento social e apoio das equipes da Defesa Civil. Há equipes ainda de prontidão para novas remoções, caso o nível do rio volte a subir. FOTOS: enchente em dezembro no Acre atinge Rio Branco O que explica a cheia atípica? O doutor em Meteorologia e professor da Universidade Federal do Acre (Ufac), Rafael Coll Delgado, explicou que o episódio é considerado atípico do ponto de vista climático, mas explicável do ponto de vista meteorológico, já que foi causado pela atuação de um sistema atmosférico raro na região. ⛈️ O principal fator por trás das chuvas extremas foi a atuação de um Vórtice Ciclônico de Altos Níveis (VCAN), um sistema atmosférico mais comum no Nordeste, mas que se deslocou de forma incomum para o oeste do país. "Nesse caso de Rio Branco, ele se posicionou como uma alta pressão em torno de 10 quilômetros de altitude e começou a se deslocar para o interior do continente, atingindo a região oeste do Brasil", detalhou. 🚨 De acordo com o especialista, os alertas de tempestade já vinham sendo emitidos para a Região Norte. Inclusive, os modelos meteorológicos já indicavam, entre os dias 24 e 25 de dezembro, o deslocamento desse sistema em direção ao Acre. O VCAN, que tem grandes dimensões, favoreceu a formação de tempestades severas na região. “Não é um vórtice pequeno. A dimensão dele é realmente muito grande, atingiu a Bolívia, a faixa de Goiás e, na sequência, avançou em direção ao estado do Acre. Isso já vinha sendo observado nos modelos meteorológicos", afirmou. Forte chuva entre 25 e 26 de dezembro alagou casas e diversos pontos em Rio Branco e contribuiu para cheia atípica Cedida Instabilidades intensas e chuvas concentradas O meteorologista explicou que, embora o núcleo do VCAN seja associado à estabilidade atmosférica, suas bordas, chamadas de vanguarda, favorecem a formação de nuvens profundas e tempestades severas, como as que atingiram Rio Branco e municípios do interior. "No núcleo do vórtice, há ausência de formação de nuvens. Mas, na vanguarda do sistema, ou seja, nas áreas frontais do vórtice, há uma instabilidade atmosférica muito intensa que favorece a formação de células convectivas profundas, tempestades e volumes elevados de precipitação", complementou. Imagens de satélite analisadas durante o evento mostraram nuvens com desenvolvimento vertical extremo, indicando alto potencial de chuva. "Quando a gente observa imagens de satélite com topos de nuvens atingindo temperaturas inferiores a -100ºC, isso significa que essas nuvens ultrapassaram a troposfera e alcançaram a tropopausa. Isso é um indicativo claro de atividade convectiva muito intensa e, consequentemente, de chuvas volumosas, afirmou. Por causa das cheias, governo do Acre decreta situação de emergência em 5 municípios Volume de chuva extremo e fora da normalidade O meteorologista destacou que, além da atuação do sistema atmosférico, o volume de chuva registrado foi excepcional. Em apenas uma hora de chuva na sexta (26), por exemplo, foram medidos 38 milímetros, o que equivale a 38 litros de água por metro quadrado. Em menos de um mês, o acumulado ultrapassou os 500 milímetros, o dobro do valor normal climatológico. Ele explicou que a intensidade e a distribuição espacial da chuva são difíceis de serem estimadas com precisão pelos modelos globais de meteorologia, especialmente no Acre onde há condições específicas como florestas, rios, áreas urbanas e uso do solo. "Porém, esse fenômeno era previsível. Então, não houve uma surpresa do ponto de vista meteorológico, mas na quantidade de chuva", pontuou. VÍDEOS: g1