Cafeína pode reverter prejuízos na memória causados pela falta de sono, aponta estudo

Cafeína pode reverter prejuízos na memória causados pela falta de sono, aponta estudo Adobe Stock A cafeína pode ajudar a restaurar a memória afetada pela ...

Cafeína pode reverter prejuízos na memória causados pela falta de sono, aponta estudo
Cafeína pode reverter prejuízos na memória causados pela falta de sono, aponta estudo (Foto: Reprodução)

Cafeína pode reverter prejuízos na memória causados pela falta de sono, aponta estudo Adobe Stock A cafeína pode ajudar a restaurar a memória afetada pela privação de sono, segundo um estudo da Escola de Medicina Yong Loo Lin, da Universidade Nacional de Singapura (NUS Medicine). A ação da substância ocorreu de maneira direcionada. Ela restaurou seletivamente o circuito cerebral afetado pela falta de sono, sem provocar hiperestimulação em outras áreas. De acordo com os pesquisadores, a privação de sono interfere diretamente no funcionamento do hipocampo, região essencial para memória e aprendizagem. Dentro dele, a área conhecida como CA2 desempenha papel importante na formação da memória social e também recebe sinais relacionados ao ciclo sono-vigília. Nos experimentos, os participantes dormiram 5 horas a menos do que seria considerado normal. Após esse período, foram observadas alterações na comunicação entre neurônios na região CA2, com prejuízo da chamada plasticidade sináptica. Esse mecanismo permite ao cérebro fortalecer ou enfraquecer conexões com base na experiência. A privação de sono levou à redução da capacidade de fortalecimento das conexões neurais e déficits claros na memória de reconhecimento social. Segundo o estudo, a perda de sono impacta tanto a função neural quanto o comportamento, de forma específica para determinados circuitos cerebrais. Mas a ingestão de cafeína por sete dias e antes da privação de sono levou à: recuperação da comunicação sináptica na região CA2 restauração da plasticidade aos níveis normais reversão dos déficits de memória social, usada para lidar com relações sociais no dia a dia. A memória social é a capacidade do cérebro de reconhecer, lembrar e diferenciar outras pessoas. Saber quem o indivíduo já viu antes, identificar rostos familiares ou lembrar como alguém se comporta, por exemplo. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Efeito é específico, não generalizado Um dos principais achados do estudo é que a ação da cafeína não ocorreu de forma ampla em todo o cérebro, mas sim de maneira direcionada. Segundo os pesquisadores, a substância restaurou seletivamente o circuito cerebral afetado pela falta de sono, sem provocar hiperestimulação em outras áreas. Isso foi observado no grupo de controle, que não sofreu privação de sono e não apresentou aumento excessivo da atividade neural, mesmo com a ingestão de cafeína. “A privação de sono não apenas causa cansaço. Ela interfere seletivamente em importantes circuitos de memória. Descobrimos que a cafeína pode reverter essas interrupções tanto em nível molecular quanto comportamental”, afirmou o Dr. Lik-Wei Wong, primeiro autor do estudo. Na prática, é como se a cafeína desse um “reset” seletivo nas sinapses, ajudando o cérebro a priorizar memórias essenciais para convivência, explica o nutrólogo e médico do esporte Eduardo Rauen. “Os benefícios são claros e respaldados por décadas de pesquisa: melhora o foco, a atenção sustentada e o humor, bloqueando receptores de adenosina que acumulam fadiga”, complementa o nutrólogo. Possibilidade de desenvolvimento de terapias moleculares para a função cognitiva Segundo o professor associado Sreedharan Sajikumar, os resultados ajudam a ampliar a compreensão dos mecanismos biológicos envolvidos no declínio cognitivo associado à falta de sono e podem orientar futuras estratégias para preservar o desempenho mental. A partir dessas descobertas, os pesquisadores pretendem investigar com mais profundidade o papel da cafeína na consolidação e recuperação da memória, além de explorar a relação causal entre circuitos neurais específicos e os efeitos observados. A expectativa é que esses avanços contribuam para o desenvolvimento de terapias moleculares direcionadas a condições que afetam a função cognitiva. O neurologista e membro da diretoria da Academia Brasileira Lucio Huebra explica que o funcionamento do hipocampo pode ser prejudicado em indivíduos com espectro autista, esquizofrenia e doenças degenerativas como a doença de Alzheimer. Por isso, entender a atuação da cafeína nesta região pode permitir pesquisas de manipulação desta via para o tratamento de distúrbios neuropsiquiátricos com prejuízo das habilidades sociais. A ação da cafeína no cérebro Huebra explica que o efeito mais potente da cafeína é bloquear a sensação subjetiva de fadiga, retardar o início do sono, aumentar o tempo de vigília e melhorar a atenção e o desempenho em tarefas que exigem concentração. A substância atua bloqueando vias de sinalização do receptor de adenosina, que se acumulam durante períodos de vigília e reduzem a atividade cerebral. “Existe uma grande variabilidade individual em relação aos efeitos benéficos da cafeína, sobretudo ligada a polimorfismo genético dos receptores de adenosina, que levam a uma maior ou menor capacidade de ligação à cafeína. Isso explica por que algumas pessoas são mais ou menos sensíveis aos efeitos da cafeína”, diz Huebra. O limite de consumo para que a cafeína não prejudique o sono De acordo com a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) e a Agência Reguladora dos Estados Unidos (FDA), o consumo de uma dose moderada de cafeína é considerado bastante seguro no adulto. Isso corresponde a um valor de 200 mg a 400 mg ao dia, o equivalente a 3 ou 4 xícaras por dia (uma xícara de café tem em média 80 mg a 120 mg de cafeína). Além disso, é importante também ficar atento ao horário do consumo, pois a cafeína fica no organismo por um período de 5 a 7 horas. Logo, ela deve ser consumida idealmente no máximo até as 16h, destaca Huebra. Estudos mostram que quem passa da quantidade ideal de cafeína por dia perde qualidade de sono, mesmo sem insônia aparente. Rauen destaca que a cafeína não substitui o sono. “Em excesso, ela prolonga a vigília noturna, criando um ciclo vicioso. Pessoas com variações genéticas específicas nos genes CYP1A2 e ADORA2A podem apresentar maior sensibilidade à cafeína, sentindo ansiedade ou taquicardia com doses mais baixas”, afirma Rauen. Os efeitos adversos mais comuns da cafeína são insônia, transtornos de ansiedade, arritmias em pessoas suscetíveis e doença do refluxo. O uso frequente de cafeína pode mascarar sinais de privação de sono? O uso frequente de cafeína pode ser um sinal de privação crônica de sono. Isso porque indivíduos com sono encurtado ou de má qualidade comumente buscam estratégias para inibir os sintomas diurnos, fadiga e sonolência, relacionados ao sono insuficiente. Mas é importante salientar que o uso da cafeína tem efeito paliativo e temporário. Ele não restaura as funções cognitivas plenamente e não atenua os demais efeitos maléficos de noites mal dormidas, acrescenta Huebra. Além disso, o consumo frequente de cafeína pode mascarar um processo silencioso de piora da saúde irreversível causado por essa privação, levando ao ganho de peso, piora do perfil metabólico, aumento do risco cardiovascular e aceleração do processo de degeneração cerebral, segundo o neurologista. Quais tipos de memória são mais afetados pela falta de sono no dia a dia? No dia seguinte a uma noite privada de sono, a função cognitiva mais afetada é a memória de trabalho – a de curto prazo que usamos para manipular as informações e permite o raciocínio em situações mais complexas, cálculos e tomada de decisões “É comum esquecer o que se falava no meio da frase, perder o raciocínio em uma explicação, errar contas simples ou ter dificuldade de seguir instruções com múltiplos passos”, explica Huebra. Além disso, também há prejuízo da memória episódica ligada a eventos recentes, com o esquecimento, por exemplo, do nome de um filme assistido na noite anterior e pequenos detalhes do dia a dia. A memória declarativa, relacionada a fatos e conhecimentos, também pode ser prejudicada, especialmente se há privação de sono profundo (sono de ondas lentas), o que interfere no aprendizado. Quanto tempo de privação de sono pode causar prejuízos cognitivos relevantes? Qualquer redução no tempo de sono já impacta transitoriamente o desempenho cognitivo do dia seguinte, mas existem estudos que mostram que uma única noite com privação total de sono já propicia o acúmulo de proteínas tóxicas associadas ao processo degenerativo visto na doença de Alzheimer. Um período de 17 a 19 horas de vigília equivalem a 0,05% de álcool no sangue, segundo diretrizes da American Academy of Sleep Medicine. Após 24 horas, o declínio cognitivo é comparado a 0,10% de álcool – perda de foco, decisões ruins, reações lentas. “É importante salientar que não existe um número seguro de tempo de privação de sono. Qualquer encurtamento nas horas dormidas já traz pequenas consequências acumulativas em nossa função cognitiva”, diz Huebra. Rauen destaca que a rotina de sono e um café matinal moderado já transformam o foco diário. “Priorize o sono como base, com 7 a 8 horas fixas toda noite, e use cafeína como suporte pontual, somente até o almoço. Seu corpo agradece, e os resultados vêm rápido, na prática”, afirma o nutrólogo. LEIA TAMBÉM: Café com leite faz bem? Veja a proporção ideal e quem deve evitar Café pode reduzir a chance de demência, diz estudo Tomar menos café nos faz ter sonhos mais intensos? Faz mal tomar café durante as refeições? Chocolate no café da manhã: veja dicas para evitar picos glicêmicos durante o desjejum