Casal palestino de Gaza diz que está retido há 6 dias no aeroporto internacional de SP após pedir refúgio

Casal palestino de Gaza está retido há 6 dias em Aeroporto Internacional de SP após pedir refúgio Arquivo Pessoal Um casal palestino da Faixa de Gaza, com o...

Casal palestino de Gaza diz que está retido há 6 dias no aeroporto internacional de SP após pedir refúgio
Casal palestino de Gaza diz que está retido há 6 dias no aeroporto internacional de SP após pedir refúgio (Foto: Reprodução)

Casal palestino de Gaza está retido há 6 dias em Aeroporto Internacional de SP após pedir refúgio Arquivo Pessoal Um casal palestino da Faixa de Gaza, com o filho de 1 ano e meio, afirma que está retido desde o dia 16 de abril deste ano na área restrita do Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, impedido de ingressar no país sem justificativa formal apresentada pelas autoridades brasileiras. De acordo com o advogado Willian Fernandes, responsável pelo caso, Hani M. M. Alghoul e a esposa Eitemad M.A. Alqassass Suhayla já pediram refúgio no Brasil e ambos estão com vistos válidos de turismo, emitidos por autoridade consular brasileira. Porém, como a entrada ainda não foi permitida, foi feita uma ação judicial nesta terça-feira (21) para impedir a repatriação da família e garantir a entrada deles. Por enquanto, a família está em um hotel que fica dentro da área restrita. “Estamos diante de um caso humanitário evidente. Trata-se de uma família em fuga de uma zona de guerra, com uma gestante em condição clínica delicada e uma criança pequena em situação de risco. O Brasil tem compromisso com situações como esta, seja pelo dever de acolhimento de pessoas oriundas de zonas de conflito armado, seja pela presença de criança e gestante”, afirma o advogado. E complementa: “A manutenção dessa retenção, sem justificativa, é incompatível com os princípios mais básicos de dignidade humana. Se essa família tivesse sido devolvida, talvez não houvesse mais possibilidade de proteção. Por isso, a atuação judicial foi urgente”, ressaltou. Leia também Depoimento à polícia menciona que ganês morto após passar mal em aeroporto avisou sobre dores e não recebeu ajuda imediata Brasil muda regras de acolhimento de imigrantes sem visto de entrada que pedem refúgio Justiça Federal nega habeas corpus para 104 imigrantes retidos no aeroporto à espera de refúgio; MPF pede que nova regra de acolhimento seja anulada Em uma nota divulgada pelo advogado, Hani M. M. Alghoul descreveu o quanto está preocupado com sua família e ressaltou que está vivendo um momento bem difícil. “Nossa condição de saúde é muito preocupante. Minha esposa está grávida, com anemia grave, e precisou de transfusão de sangue recentemente. Ela também está muito abalada psicologicamente por tudo o que vivemos na guerra e pela situação aqui. Nosso filho pequeno está doente, com problemas intestinais e sem conseguir se alimentar ou evacuar adequadamente há dias”. Em nota, o Itamaraty informou que sobre a decisão de impedir a entrada dos palestinos é apenas com a PF. O g1 entrou em contato com a Polícia Federal e GRU Airport, mas não obteve retorno de nenhum deles até a publicação da reportagem. Ainda conforme o advogado, a família já possui local para acolhimento em São Paulo, com apoio de amigos, o que assegura condições dignas de permanência no país. 'Muita falha' No caso dessa família, segundo Faysa Daoud, presidente da ONG Refúgio Brasil, o trajeto começou com a saída de Gaza rumo ao Egito. “No Egito, eles foram à embaixada brasileira e conseguiram visto de turismo, porque não tem visto humanitário para o pessoal de Gaza, palestinos não têm”, afirma. Ela diz que a entidade chegou a pressionar o governo brasileiro para a criação desse tipo de visto, mas sem sucesso. A alternativa, então, foi usar o visto de turismo. “Quando a família chegou aqui no Brasil com visto de turismo, ela foi barrada. Inclusive, estava na fila, foi tirada e interrogada. Perguntaram várias coisas, onde eles estavam no 7 de outubro, onde trabalhavam”, relata. Segundo ela, o homem trabalha nos Emirados Árabes Unidos e havia ido visitar a família em Gaza quando o conflito se intensificou. “Ficou preso lá e só na semana passada conseguiu sair para o Egito, onde pediu o visto e veio.” Ao desembarcar no Brasil, a orientação foi solicitar refúgio. “A gente orientou, junto com a Federação Árabe Palestina e com advogado, a pedir refúgio, porque eles têm esse direito”, diz. O pedido, no entanto, ainda não foi analisado. “O pedido está feito, ninguém julgou ainda.” Enquanto aguardam, a família segue retida no aeroporto. Faysa descreve uma série de dificuldades enfrentadas. “Ele está com a esposa e um filho de um ano e meio. A esposa está grávida de quatro meses, com anemia, foi socorrida para o hospital, precisa de transfusão. O filho também está passando mal, porque o leite mudou, está com o intestino incomodado.” Segundo ela, há restrições até para cuidados básicos. “Ele pediu um pouco do leite, alimentação, papinha, mas nada. Não pode entrar nada no quarto do hotel onde estão a esposa e o filho.” A situação se agrava com as regras impostas ao pai. “Ele mesmo não pode dormir com eles. Se quiser ficar no quarto para cuidar da mulher e do filho, tem que pagar mil reais por dia.” Ela afirma ainda que apenas ele tem direito ao café da manhã. “Ele não pode pegar comida do prato da mulher. Se não tiver dinheiro para pagar, tem que sair do quarto e dormir no saguão, em condições muito precárias.” Diante disso, questiona: “Como ele vai deixar o filho e a esposa sozinhos, passando mal?” Para Faysa, o caso evidencia falhas no acolhimento. “Eu acredito muito que está acontecendo muita falha. O Brasil é um país que tem tratado, desde depois da Segunda Guerra Mundial, e recebe muito bem refugiados, mas isso não está acontecendo agora, principalmente com os palestinos.” Segundo Paulo Illes, coordenador do Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Migrante, entidades da sociedade civil têm manifestado preocupação com a recorrência de casos semelhantes no Aeroporto de Guarulhos. “Temos acompanhado com preocupação o aumento dessas situações. Casos como este, inclusive, já foram reportados ao Relator Especial sobre os Direitos Humanos dos Migrantes da ONU, que esteve recentemente em São Paulo”, afirma Illes. Brasil muda regras de acolhimento de imigrantes sem visto de entrada que pedem refúgio Veja momento em que imigrante de Gana é atendido no Aeroporto de SP dias antes de morrer