China acelera corrida tecnológica com robôs, fábricas automatizadas e produção em massa
Robôs humanóides, fábricas automatizadas: a corrida industrial entre China e EUA Robôs que trabalham como humanos, fábricas automatizadas e uma produção ...
Robôs humanóides, fábricas automatizadas: a corrida industrial entre China e EUA Robôs que trabalham como humanos, fábricas automatizadas e uma produção em escala gigantesca marcam a corrida industrial do século XXI. Esta disputa entre duas superpotências, China e Estados Unidos, define o futuro do planeta. Veja no terceiro episódio da série "Entre Dois Mundos". O gigantesco mercado de Yiwu Na mais nova ala do maior mercado de atacado do mundo, localizado em Yiwu, na China, a tecnologia é a protagonista antes mesmo da inauguração oficial. Robôs dançarinos e humanoides que praticam kung fu interagem com os visitantes. As demonstrações incluem desde treinamento de cães-robôs, que pulam aros e dão a pata, até tecnologias utilitárias, como luvas que controlam mãos biônicas e robôs que limpam painéis solares. Itens de consumo cotidiano também ganham versões tecnológicas, como mochilas de LED e gatinhos com inteligência artificial que custam cerca de 300 reais. Óculos com inteligência artificial, que têm foto, vídeo, tocam música e traduzem tudo o que a pessoa fala e custam um quinto do modelo americano. Há também malas motorizadas para facilitar o deslocamento em aeroportos. Yiwu é uma cidade com 700 mil habitantes locais e mais de 1 milhão de trabalhadores migrantes. O mercado atacadista possui 6 milhões de metros quadrados e 75 mil lojistas. Se você parar um minuto em cada estande, demora 5 meses para ver tudo. No local, encontram-se desde produtos populares até itens de luxo. Ana, que auxilia compradores brasileiros, explica o processo de seleção de mercadorias, como as populares pelúcias de capivara. "Primeiro ponto que a gente vai observar é o tamanho, então desde o acabamento, tamanho, qualidade da pelúcia por fora, qualidade de dentro", explica Ana. A negociação é direta: os preços e condições são anotados no chão. Felipe registrou um dos valores: "Isso aqui é o equivalente a 5 reais e 80 centavos." Ana complementa sobre a escala: "Se você levar duas caixas, ela é um custo; se você levar um contêiner, a gente consegue diluir muito mais." Embora a China não celebre o Natal, a maior parte dos artigos natalinos mundiais sai de Yiwu. A estratégia industrial chinesa No ano passado, a China registrou o maior superávit comercial da história mundial, vendendo 1 trilhão e 200 bilhões de dólares a mais do que comprou. Mesmo com a redução nas compras americanas devido às tarifas de Donald Trump, o domínio chinês é evidente. Enquanto o lema "Faça a América Grande de Novo" estampa souvenirs em Nova York, a etiqueta revela: "Fabricado na China". A organização industrial chinesa remonta à década de 1980, com a criação das Zonas Econômicas Especiais. O modelo, descrito como "capitalismo à moda chinesa", permitiu que o Estado controlasse enclaves capitalistas em um país comunista. Uma geração de trabalhadores aceitou jornadas de doze horas e salários baixos para transformar a China na "fábrica do mundo". Esse processo gerou polos industriais especializados, como a "cidade do cristal" ou polos de carros elétricos e placas solares. Em uma fábrica de calças legging, a eficiência impressiona. Ana explica as diferenças de material: "Pega aqui nos dois. Basicamente essa fábrica produz esses dois tipos de qualidade. Um é poliéster e um é poliamida... esse toque é muito mais macio e é um tecido mais caro. Então esse tipo de fábrica que consegue produzir os dois tem uma competitividade muito grande." A produção utiliza máquinas alemãs de alta precisão e é monitorada por um "cérebro inteligente". Uma funcionária da fábrica relata: A fábrica produz entre 200 mil e 250 mil peças por dia, podendo entregar pedidos de 10 mil peças em apenas sete dias. O custo de saída da fábrica para uma legging varia de 9 a 24 reais, mas o preço final ao consumidor pode chegar a 800 reais, dependendo da marca aplicada. Uma marca cara consegue, em algumas situações, vender um material que não seja premium, não seja o melhor. A gerente da fábrica vê a revenda por preços altos como um "reconhecimento da qualidade" do que produzem. Infraestrutura e o desafio americano Para escoar essa produção, a China investiu massivamente em infraestrutura. Em 1988, o país não possuía rodovias expressas; hoje, tem a maior malha do mundo, com 180 mil quilômetros. Possui também mais trilhos de alta velocidade que o restante do mundo somado e construiu mais de 100 aeroportos comerciais em duas décadas. Nos Estados Unidos, o impacto dessa ascensão foi sentido na manufatura. Estima-se que a entrada da China na Organização Mundial do Comércio tenha extinguido mais de 1 milhão de empregos nos EUA. Dan Ariens, dono de uma fábrica de cortadores de grama em Wisconsin, explica a reação. "Nós e todos os outros que sobreviveram ficamos mais inteligentes em construir, com melhor custo-benefício, melhor qualidade e processos de produção mais seguros." A automação foi o caminho, embora tenha substituído trabalhadores. Ariens detalha que o uso de veículos autônomos na fábrica eliminou cerca de 20 postos de trabalho de operadores de empilhadeira. Robótica e o futuro do trabalho Atualmente, a China busca derrubar mitos, como o de que a produção barata depende apenas de salários baixos. Em uma década, o salário médio em fábricas de legging subiu de 1.100 para valores entre 3.000 e 5.000 reais. No laboratório da Universidade de Zhejiang, o foco é o desenvolvimento de robôs humanoides. Um pesquisador explica: "A gente precisa de um sistema em que os robôs possam trabalhar para a gente... é por isso que não apenas na China, mas também em todo o mundo, as pessoas estão particularmente interessadas em robôs humanoides." O destaque é o robô Bolt, batizado em homenagem a Usain Bolt, com o objetivo de ser mais rápido que um humano. "Apenas duas pessoas chinesas conseguem correr 100 metros em 10 segundos. Mas nossa missão estará completa quando ele for mais rápido que Usain Bolt", afirma o desenvolvedor. Segundo ele, a China lidera na construção do corpo dos robôs, enquanto os americanos avançam mais na inteligência artificial. O conceito de "fábricas escuras" ou "fábricas de luzes apagadas" também ganha força, simbolizando a automação total, onde a intervenção humana é mínima ou inexistente, como em setores de soldagem de automóveis. O gerente de uma dessas fábricas explica: "'Apagar as luzes' não é o que define esse tipo de fábrica. Na prática, esse conceito está ligado à automação. E automação significa justamente menos participação humana." Apesar do avanço, especialistas como um professor da Universidade de Nova York apontam que a China ainda não alcançou a liderança ocidental na indústria de semicondutores, que exige trabalho humano altamente qualificado. Ele observa: "A China tem uma série de dimensões de vantagem. Eles têm o conhecimento de processo por serem a fábrica do mundo nos últimos 20 anos... Um setor em que os EUA e a Europa Ocidental ainda mantêm alguma liderança é o de semicondutores." Enquanto os americanos debatem a reconstrução de suas fábricas, a China aposta na tecnologia que molda o futuro, como carros elétricos e baterias de lítio. A reportagem encerrou registrando o robô chinês atingindo a velocidade de 12 metros por segundo, equiparando-se a Usain Bolt. Felipe concluiu a interação com a máquina: "Parabéns, robô. Reconheço sua vitória." No próximo episódio, a série abordará o encontro em Pequim entre Donald Trump e Xi Jinping, colocando a diplomacia em jogo. GloboPop: clique para ver os vídeos do palco do Fantástico Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. Todo domingo tem um episódio novo.