Cometa interestelar 3I/ATLAS tem quantidade incomum de álcool, revelam novos dados
Ilustração mostra o cometa interestelar 3I/ATLAS próximo ao Sol. Em azul aparece o gás metanol liberado pelo objeto; em laranja, o cianeto de hidrogênio de...
Ilustração mostra o cometa interestelar 3I/ATLAS próximo ao Sol. Em azul aparece o gás metanol liberado pelo objeto; em laranja, o cianeto de hidrogênio detectado nas observações. NSF/AUI/NSF NRAO/M. Weiss O cometa interestelar 3I/ATLAS voltou a chamar atenção da comunidade científica após novas observações revelarem um detalhe inesperado sobre sua composição química. Astrônomos identificaram que o objeto contém uma quantidade incomum de metanol — um tipo simples de álcool — muito acima do observado na maioria dos cometas do nosso próprio Sistema Solar. A descoberta foi feita por uma equipe internacional que analisou o cometa com o Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA), um dos mais poderosos observatórios de rádio do mundo, instalado no deserto do Atacama, no Chile. Além de curiosa, a descoberta deve ajudar astrônomos a investigar como é a composição química de objetos formados em torno de outras estrelas. ☄️ ENTENDA: Para os pesquisadores, objetos como o 3I/ATLAS funcionam como cápsulas do tempo que preservam materiais originados em torno de outras estrelas. Segundo o astrônomo Nathan Roth, da American University (EUA) e autor principal do estudo, observar esse tipo de objeto permite acessar informações sobre ambientes que normalmente estão muito distantes para serem investigados diretamente. “Observar o 3I/ATLAS é como coletar uma impressão digital de outro sistema solar”, afirmou em um comunicado. 3I/ATLAS: Cometa ou nave alienígena? Como foi feita a pesquisa? Durante o estudo, os cientististas monitoraram o cometa em várias datas no final de 2025, quando ele aproximava do Sol. Como a radiação do Sol aquece a sua superfície congelada, gases e poeira são liberados para o espaço nesse processo. Esse material forma então uma nuvem luminosa ao redor do seu núcleo, chamada coma, que pode ser analisada pelos telescópios. Com isso, os cientistas examinaram as assinaturas químicas presentes nessa nuvem e focaram em duas moléculas orgânicas detectadas: metanol (CH₃OH) e cianeto de hidrogênio (HCN). Ambas são comuns em cometas e ajudam a reconstruir as condições químicas existentes quando esses corpos se formaram. A comparação entre essas moléculas, contudo, revelou um resultado incomum. Nos dados obtidos pelo ALMA, o metanol aparece de 70 a 120 vezes mais abundante que o cianeto de hidrogênio. Ainda segundo os pesquisadores, essa proporção coloca o 3I/ATLAS entre os objetos mais ricos em metanol já observados entre os cometas conhecidos. Para os astrônomos, esse desequilíbrio químico indica que o material gelado que formou o cometa se originou em condições diferentes das que deram origem aos cometas do Sistema Solar. Observações anteriores feitas com o Telescópio Espacial James Webb já haviam mostrado outra característica incomum do 3I/ATLAS: sua nuvem de gás era dominada por dióxido de carbono quando o cometa ainda estava distante do Sol. O cometa 3I/ATLAS cruza um campo denso de estrelas em registro feito pelo instrumento GMOS no telescópio Gemini Sul, no Chile. Na imagem, o cometa permanece fixo enquanto as estrelas viram rastros coloridos devido às exposições em diferentes filtros. Gemini Observatory/NSF NOIRLab As imagens de alta resolução do ALMA também permitiram analisar de onde exatamente as moléculas são liberadas. O cianeto de hidrogênio parece sair diretamente do núcleo do cometa, um comportamento comum em cometas do Sistema Solar. Já o metanol apresenta uma dinâmica diferente. Parte dele também vem do núcleo, mas outra parte parece ser liberada por pequenos grãos de gelo presentes na própria nuvem de gás. Esses fragmentos funcionam como reservatórios congelados. Quando se aquecem pela radiação solar, liberam metanol para o espaço. Um mecanismo do tipo já foi observado em alguns cometas do Sistema Solar, mas é a primeira vez que os cientistas conseguem identificar esse processo com tanto detalhe em um objeto de origem interestelar. O 3I/ATLAS visto a partir da órbita de Marte. ESA O que é o cometa? O 3I/ATLAS foi descoberto em julho de 2025 por um telescópio do projeto ATLAS, no Chile, e rapidamente chamou atenção: ele não nasceu no nosso Sistema Solar. É apenas o terceiro cometa interestelar já identificado, depois de ʻOumuamua (2017) e Borisov (2019). Esses objetos são considerados verdadeiros forasteiros cósmicos, formados em torno de outras estrelas e lançados ao espaço há bilhões de anos. Por sua trajetória e velocidade, astrônomos acreditam que o 3I/ATLAS possa ser até 3 bilhões de anos mais antigo que o Sol, o que o torna uma relíquia da formação de outros sistemas planetários. Diagrama mostra a trajetória do cometa interestelar 3I/ATLAS pelo Sistema Solar. NASA/JPL-Caltech LEIA TAMBÉM: Astronauta da Nasa flagra fenômeno luminoso raro durante tempestade vista do espaço; entenda Em fenômeno inédito, cientistas descobrem planeta que acelera sua própria destruição; entenda O teste de DNA em osso que pode reescrever a história do Egito antigo Fotógrafo do RS faz imagem incrível de cometa 'mais brilhante do ano'