Delegado é condenado a mais de dois anos de prisão por stalking contra ex-namorada no Acre

Delegado Luis Tonini foi condenado por perseguir a ex-namorada Anny Barbosa/g1/arquivo Mais de dois anos após o crime, o delegado de Polícia Civil Luis Tonini...

Delegado é condenado a mais de dois anos de prisão por stalking contra ex-namorada no Acre
Delegado é condenado a mais de dois anos de prisão por stalking contra ex-namorada no Acre (Foto: Reprodução)

Delegado Luis Tonini foi condenado por perseguir a ex-namorada Anny Barbosa/g1/arquivo Mais de dois anos após o crime, o delegado de Polícia Civil Luis Tonini foi condenado a pena superior a dois anos de prisão por perseguição - também conhecida como stalking - e violência doméstica contra a ex-namorada. A decisão foi proferida no último dia 3 de março pela Vara Única Criminal da Comarca de Epitaciolândia, interior do Acre, e cabe recurso. (Entenda o que é stalking mais abaixo) A pena deve ser cumprida em regime aberto e, portanto, o réu pode recorrer em liberdade. O delegado deve ainda pagar uma indenização de R$ 20 mil à vítima. Ele foi absolvido da acusação de violência psicológica contra a mulher. 📲 Participe do canal do g1 AC no WhatsApp 👉 Contexto: Em julho de 2023, Luis Tonini, que era coordenador da delegacia de Epitaciolândia, foi preso em flagrante por descumprimento de uma medida protetiva contra a ex. A polícia foi acionada pela mulher após o delegado tentar pular o muro da casa dela. Dois dias depois, a Justiça concedeu liberdade provisória e impôs a ele medidas cautelares como a proibição de se aproximar ou manter contato com a vítima, entre outras. Tonini negou as acusações na época. A reportagem apurou que o delegado está afastado das funções há mais de dois anos em tratamento de saúde. Ao g1, ele negou as acusações, mas disse que não vai comentar a sentença porque o caso está em segredo de Justiça. 'Stalking': saiba quando a perseguição na internet se torna crime A Polícia Civil afirmou que a condenação é resultado de um trabalho investigativo feito pela corregedoria, que concluiu as investigações e remeteu ao Judiciário. Conforme a decisão, a ex-namorada dele, que também é agente de polícia, sofreu danos psicológicos como Transtorno de Estresse Pós-Traumático, precisou de medicação ansiolítica, se afastou do trabalho, mudou de residência e teve drástica alteração de rotina. LEIA TAMBÉM: Delegado é preso por descumprir medida protetiva contra ex-namorada no interior do Acre Delegado do AC é denunciado por violência moral e psicológica contra ex-namorada e alega perseguição Após ser transferido de cidade no Acre, delegado acusa diretor da Polícia Civil de perseguição: 'vou judicializar' Acre registrou mais de 200 casos de stalking em oito meses; saiba como procurar ajuda 'Stalking': entenda quando a perseguição na internet se torna crime Conforme a decisão, entre agosto e outubro de 2023, o réu perseguiu, reiteradamente, a mulher por diversos meios, "enviando mensagens a terceiros solicitando informações sobre sua rotina e aparência; utilizando advogada para enviar recados pessoais; monitorando seus deslocamentos; e mantendo vigilância sobre sua vida privada, mesmo após a decretação de medidas protetivas de urgência", diz parte da sentença. O delegado e a agente de polícia ficaram juntos por dez meses quando ele era coordenador da delegacia de Epitaciolândia. Após o rompimento, a vítima contou que "se sentiu ameaçada e abalada psicologicamente, sem conseguir comer e dormir direito e com receio de ir aos locais onde costumava frequentar", motivo pelo qual pediu a medida protetiva. Com isso, o delegado ficou impedido de atuar no município onde era lotado e foi transferido para Rio Branco. Ao g1, na época, Tonini afirmou que a denúncia era mais um ato de perseguição, e também criticou veículos da imprensa acreana que, segundo ele, teriam exposto detalhes da decretação de medida protetiva, o que classificou como sensacionalismo. Porém, as informações estavam disponíveis publicamente no sistema de consultas de processos do Tribunal de Justiça do Acre, sem nenhum tipo de sigilo. Monitorava corte de cabelo da vítima Ainda conforme a decisão, mesmo após a determinação da Justiça para ele não se aproximar da vítima, Tonini perturbava amigos e conhecidos da mulher para saber como ela estava. "Não satisfeito, o acusado continuou a perseguir a vítima, vindo a lhe causar danos emocionais. Nesse sentido, a advogada [dele] marcou horário com a advogada da vítima. Na reunião, teria dito que estava ali a pedido de seu cliente, para dizer que ele estava arrependido de seus atos, os quais teriam sido praticados em um momento de desequilíbrio, pois amava a vítima e queria saber se estava tudo bem com ela e se estava precisando de algo", detalha a Justiça. Em setembro de 2023, o delegado chegou a retornar para Epitaciolândia e ficava insistentemente perguntando pela ex-namorada à auxiliar de limpeza da delegacia. Conforme a Justiça, o delegado enviou diversos áudios à testemunha querendo saber o tamanho do cabelo da vítima, a aparência dela e se estava em um novo relacionamento. "No ponto, observa-se que os áudios e respectivas transcrições revelam que o acusado perguntou à testemunha: 'Ela tá bem? Me tira uma dúvida, por favor. Ela tá com o cabelo até o ombro ou botou mega (hair) e tá com o cabelão comprido?' . Em outra oportunidade, ele indagou: 'Ela tá indo trabalhar normal? E o cabelo dela?'", descreve. A vítima contou em depoimento que o delegado monitorava o corte de cabelo dela e que tentou fazer isso após o fim do relacionamento. "Embora, em seu interrogatório, o réu tenha negado as acusações alegando que seus contatos eram motivados por "preocupação" ou "questões logísticas", e que estava cuidando do pai doente em outro estado, negando veementemente ter a intenção de perseguir ou causar dano, verifica-se que a tese defensiva é falaciosa e contraditória", destacou a decisão. Em depoimento, o delegado negou as acusações e alegou que, na época, uma mulher havia invadido o apartamento dele e que perguntou sobre a aparência da vítima para tentar confirmar se era a ex quem tinha entrado no local. Tonini afirmou também que passava por problemas pessoais e familiares na época dos fatos. "No entanto, a versão apresentada pelo réu não encontra amparo no conjunto probatório. Os áudios transcritos nos relatórios técnicos demonstram que as perguntas feitas pelo réu a terceiros não se limitavam à aparência física da vítima, mas abrangiam sua rotina (frequência à academia, horários), seu estado emocional e, especialmente, se estaria se relacionando com alguém ("dando ousadia" )", frisou. O que é 'stalking'? O stalking consiste em uma série de comportamentos que, ocorrendo de forma repetitiva, restringem a liberdade da vítima, fazendo com que ela não se sinta confortável em publicar conteúdo nas redes sociais e até tenha medo de andar na rua. ⚠️O stalking pode se manifestar de diferentes formas: por meio de mensagens, ligações insistentes, comentários invasivos nas redes sociais, criação de perfis falsos para vigiar a rotina da vítima ou até o aparecimento constante nos mesmos lugares. A prática, que ganhou novas dimensões com o uso das redes, passou a ser considerada crime em 2021, com pena que pode chegar a três anos de prisão, além de multa. Ainda segundo o delegado, qualquer pessoa vítima de stalking deve seguir alguns passos para buscar proteção e registrar o crime. VÍDEOS: g1 VÍDEOS: Reveja as notícias do g1 em 1 minuto-AC| em G1 / AC / Acre