Justiça de SP barra despejo de clube de futebol de várzea do Campo de Marte

Grupo se apresenta no Samba do Cruz, na Zona Norte de São Paulo Divulgação/G.E.R Cruz da Esperança Uma decisão judicial da última sexta-feira (8) garantiu...

Justiça de SP barra despejo de clube de futebol de várzea do Campo de Marte
Justiça de SP barra despejo de clube de futebol de várzea do Campo de Marte (Foto: Reprodução)

Grupo se apresenta no Samba do Cruz, na Zona Norte de São Paulo Divulgação/G.E.R Cruz da Esperança Uma decisão judicial da última sexta-feira (8) garantiu fôlego ao Grêmio Esportivo Cruz da Esperança na disputa que trava com a Prefeitura de São Paulo pelo uso de sua sede, localizada no Campo de Marte, na Zona Norte da cidade. Ameaçado de despejo, o clube de futebol de várzea conseguiu uma liminar que suspende os planos de desocupação do terreno pela administração municipal. Pela decisão da 11ª Vara de Fazenda Pública, a prefeitura fica proibida de promover demolições, cercamentos, restrições de acesso ou qualquer ato que interrompa as atividades esportivas e culturais desenvolvidas pelo Cruz da Esperança – interrompendo a contagem regressiva iniciada em 26 de março, quando a Justiça paulista deu prazo de 60 dias para desocupação total da área. Ao analisar o pedido do clube, a juíza Renata Yuri Tukahara Koga considerou que não há, até o momento, documentação suficiente para comprovar que a área ocupada pela agremiação está efetivamente incluída nas intervenções previstas para o futuro Parque Campo de Marte – o complexo de lazer será implementado pela iniciativa privada, que no ano passado assinou um contrato de concessão de 35 anos com a prefeitura. Time de futebol de várzea corre risco de despejo após concessão do Campo de Marte A magistrada também levou em conta documentos e relatos que indicam ocupação histórica da área pelo Cruz da Esperança, fundado em 1958 por taxistas negros. O entendimento preliminar é de que o espaço extrapola o uso esportivo e funciona como ponto de convivência comunitária, com relevância social e cultural, especialmente para a população afrodescendente da região. O Ministério Público de São Paulo se manifestou a favor da liminar, por considerar que uma eventual retirada antes da definição clara dos limites do terreno poderia causar danos irreversíveis. Para derrubar a liminar, o município terá que apresentar estudos técnicos mostrando exatamente quais áreas serão afetadas pelas obras do parque e demonstrar que o clube teve chance de se manifestar e se defender antes de qualquer intervenção. A administração municipal foi questionada, mas não respondeu, até a publicação desta reportagem, se recorrerá da decisão. A concessionária Campo de Marte também foi procurada, mas ainda não se manifestou. Em ocasião anterior, porém, disse que manteve diálogo com todos que se dispuseram a conversar e que o novo parque será projetado para receber "tanto os que já frequentaram a área, quanto os que passarão a frequentá-la após a inauguração". Segundo a prefeitura, o espaço precisa estar totalmente desocupado para ser repassado à concessionária responsável pelo projeto, que prevê investimento de cerca de R$ 202 milhões pelo direito de exploração comercial da área por 35 anos. O Consórcio Cântaro é formado pelo mesmo grupo empresarial da Allegra Pacaembu, que administra o estádio municipal. Fim das atividades culturais Muro da sede do clube de futebol de várzea Cruz da Esperança Reprodução/TV Globo O clube vem alertando, nos últimos meses, que a saída colocaria em risco não apenas o futebol, mas também atividades culturais realizadas no local, como o tradicional Samba do Cruz, que acontece aos fins de semana e ajuda a sustentar financeiramente a agremiação. A concessionária chegou a propor um acordo para que o Cruz da Esperança saísse voluntariamente, mas o modelo garantia apenas o uso do campo de futebol, colocando em risco a principal fonte de renda do clube. Para Antônio de Jesus Marcos, presidente do Cruz da Esperança, a decisão traz alívio momentâneo e tempo para que outros recursos na Justiça avancem. "É uma luta que a gente ganhou o primeiro round, vamos ver se a gente continua na luta ganhando os próximos", disse ele ao g1. Concessão do Parque Municipal Campo de Marte Reduto do futebol de várzea O Campo de Marte foi um dos principais redutos do futebol de várzea da cidade, abrigando seis campos de futebol amador e as sedes de seus clubes desde a década de 1970. As atividades eram mantidas com autorização da Aeronáutica, que detinha a posse do terreno ao lado do aeroporto de mesmo nome. Desde o início do ano, porém, um dos times já foi removido e outros quatro aceitaram acordos para desocupação voluntária, com a promessa de uso futuro do espaço. Em 2022, um acordo entre a Prefeitura de São Paulo e a União resolveu um impasse judicial que se arrastava desde a década de 1950 e transferiu parte do terreno ao município, abrindo caminho para a concessão. Pelo acerto, firmado após décadas de litígio, a gestão municipal teve uma dívida de R$ 25 bilhões com o governo federal extinta, enquanto a Aeronáutica manteve a maior parte da área do aeroporto e a prefeitura passou a ter a posse de cerca de 400 mil metros quadrados Diante da ameaça de despejo, o Cruz da Esperança lançou um abaixo-assinado pedindo o reconhecimento como patrimônio cultural da cidade. Até esta segunda-feira (11), o documento tinha 26 mil assinaturas virtuais. Campo de futebol de várzea no antigo reduto do Campo de Marte, que será transformado em parque Reprodução/TV Globo