O que é América? 'Professor' Bad Bunny dá aula no Super Bowl e ensina lição básica de história e geografia

Bandeira do Brasil aparece entre outras das Américas no show de Bad Bunny no Super Bowl Mike Blake/Reuters No domingo (8), o gesto de Bad Bunny no intervalo do...

O que é América? 'Professor' Bad Bunny dá aula no Super Bowl e ensina lição básica de história e geografia
O que é América? 'Professor' Bad Bunny dá aula no Super Bowl e ensina lição básica de história e geografia (Foto: Reprodução)

Bandeira do Brasil aparece entre outras das Américas no show de Bad Bunny no Super Bowl Mike Blake/Reuters No domingo (8), o gesto de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl, ao listar países da América Latina e afirmar que “América” não se resume aos Estados Unidos, ecoa um debate que já faz parte do currículo escolar brasileiro. "Deus abençoe a América", disse o artista em inglês, reproduzindo a frase patriótica comumente usada pelos estadunidenses. Em seguida, ele aproveitou para definir América: "Ou seja: Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Peru, Equador, Brasil, Colômbia..." e citou todos os países do continente americano, incluindo Estados Unidos e "minha terra mãe, Porto Rico". BNCC prevê ensino da América como continente Se o show e a "aula" enfureceram o presidente Donald Trump, por outro lado não teve contradição com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC): o documento que determina o que é ensinado nas escolas do Brasil determina que a ideia de América seja ensinada como um continente diverso, formado por múltiplas histórias, identidades e relações de poder e não como sinônimo de um único país. "Nos Estados Unidos, muita gente confunde a noção de América com o próprio país, quando, na verdade, isso é resultado da forma como aprenderam", explica Paulo Rogério Andrade, professor de História e diretor do Cubo Global School. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Para o educador Tarso Loureiro, coordenador de projetos de integração curricular, diversidade é o recado mais potente na mensagem de Bad Bunny. "A percepção de que o continente americano é um continente extremamente diverso: é diverso do ponto de vista geográfico, é diverso do ponto de vista histórico, é diverso do ponto de vista étnico", afirma o educador. Na mesma direção, o professor Paulo Rogério Andrade afirma que reconhecer a diversidade do continente impacta diretamente a formação, a identidade e o senso de pertencimento dos estudantes, não apenas em relação à América. "Quando percebemos a riqueza da América, estamos falando de aspectos geográficos, climáticos, mas também culturais e econômicos, inclusive nos eixos de identidade e diversidade presentes na BNCC (Base Nacional Comum Curricular)", afirma Andrade. No ensino de História, a BNCC prevê que os alunos analisem os processos de inclusão e exclusão de populações nas nações que se formaram nas Américas ao longo dos séculos XIX e XX. A proposta é mostrar que a construção desses países não foi homogênea: diferentes grupos sociais e étnicos tiveram papéis distintos nas independências e, depois delas, enfrentaram trajetórias desiguais de pertencimento e reconhecimento. Bad Bunny com a bandeira de Porto Rico Foto/AP Photo/Mark J. Terrill O currículo também propõe que estudantes conheçam os protagonismos de grupos diversos nas lutas de independência no Brasil, na América espanhola e no Haiti. Ao trazer esses sujeitos para o centro da narrativa, a BNCC busca ampliar a noção de quem “fez” a história das Américas e questionar visões simplificadas que costumam privilegiar apenas líderes políticos ou elites. De acordo com Tarso, no Brasil é comum, na língua portuguesa, a utilização do termo “americano” para se referir às pessoas dos Estados Unidos, mas a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e os elementos culturais que formam a sociedade brasileira fazem com que a confusão entre “América” e “Estados Unidos” não seja frequente. Segundo ele, há uma percepção clara que, em geral, deve ser vivida e interpretada de maneira crítica no país. Outro eixo importante é o enfrentamento dos legados da escravidão e do pós-abolição. A BNCC orienta que os alunos discutam como a herança do sistema escravista moldou as sociedades americanas e como os processos de inserção de populações negras após a abolição foram marcados por desigualdades persistentes. Ao relacionar essas marcas do passado com estruturas sociais atuais, o currículo convida a refletir sobre pertencimento, cidadania e exclusão no presente. ➡️No caso dos povos indígenas, o documento inclui o estudo das políticas oficiais que promoveram tutela, silenciamento de saberes e até a destruição de comunidades ao longo do século XIX, além das resistências a essas ofensivas. Essa abordagem ajuda a entender como a ideia de “integração” nas Américas muitas vezes se deu à custa da negação de identidades e territórios, deixando marcas profundas nos processos de formação nacional. “Os termos ‘América’ e ‘África’, assim como as noções de ser ‘americano’ ou ‘africano’, são categorias eurocêntricas, criadas pelos colonizadores, e é importante que a escola reconheça essa origem sem negar a identidade latino-americana”, explica o educador Tarso. A BNCC também propõe analisar, no 8º ano, as relações entre os Estados Unidos e a América Latina no século XIX. O tema permite discutir assimetrias de poder no continente e como projetos políticos e interesses externos influenciaram caminhos de soberania e pertencimento regional. Ao articular esses conteúdos, o currículo escolar oferece ferramentas para que os estudantes compreendam a América como um espaço plural, marcado por encontros, conflitos e disputas de sentido. É nesse terreno que a fala de Bad Bunny ganha ressonância: mais do que um gesto simbólico no palco, ela dialoga com uma visão de continente que a escola brasileira é chamada a construir — diversa, atravessada por desigualdades e em permanente negociação de identidades. Trump diz que show de Bad Bunny no Super Bowl é "afronta à grandeza dos EUA"