‘Vivemos mais, mas o coração também sofre mais’, diz líder de laboratório que estuda hipertensão há 40 anos

Pressão de 12x8 é reclassificada como pré-hipertensão em nova diretriz O brasileiro vive mais do que há quatro décadas, mas não necessariamente com um co...

‘Vivemos mais, mas o coração também sofre mais’, diz líder de laboratório que estuda hipertensão há 40 anos
‘Vivemos mais, mas o coração também sofre mais’, diz líder de laboratório que estuda hipertensão há 40 anos (Foto: Reprodução)

Pressão de 12x8 é reclassificada como pré-hipertensão em nova diretriz O brasileiro vive mais do que há quatro décadas, mas não necessariamente com um coração mais saudável. Enquanto a cardiologia avançou de forma impressionante —com novos exames, medicamentos e estratégias terapêuticas que reduziram mortes e prolongaram a vida—, fatores como obesidade, sedentarismo, estresse crônico e alimentação ultraprocessada cresceram no mesmo período e passaram a pressionar o sistema cardiovascular da população. Poucos pesquisadores acompanharam essa transformação tão de perto quanto Robson Santos, professor da Universidade Federal de Minas Gerais e fundador do Laboratório de Hipertensão da UFMG, que completa 40 anos como um dos centros mais influentes da fisiologia cardiovascular no Brasil e no mundo. Ao longo dessa trajetória, o de Santos grupo descreveu novos componentes do sistema renina-angiotensina, mudou conceitos centrais da cardiologia e formou gerações de pesquisadores hoje espalhados por diferentes países. Nesta entrevista, Santos faz um balanço direto do que mudou no coração do brasileiro, explica por que a ciência correu mais rápido do que os hábitos da população, aponta os gargalos no controle da hipertensão e discute os limites e promessas das novas fronteiras da cardiologia. Robson Santos, líder do laboratório de hipertensão da UFMG Arquivo Pessoal/Cássia Cinque g1 - Em 40 anos de pesquisa, o que mais mudou no coração do brasileiro? Robson Santos - Mudou menos do que a gente gostaria. Houve um avanço enorme no diagnóstico e no tratamento das doenças cardiovasculares. Hoje temos exames muito mais precisos e acessíveis, e uma terapêutica muito mais eficaz. Por outro lado, os fatores de risco aumentaram muito: obesidade, sedentarismo, estresse crônico, piora do padrão alimentar. Então, apesar do progresso da medicina, o grande desafio passou a ser contrabalançar esse avanço científico com uma realidade nutricional e ambiental cada vez mais desfavorável. g1 - Mesmo com mais fatores de risco, o brasileiro hoje tem menos chance de morrer do coração do que no passado? Robson Santos - Sim. Apesar de os fatores de risco terem aumentado progressivamente, a medicina avançou de forma suficiente para reduzir eventos cardiovasculares. Hoje conseguimos diagnosticar mais cedo e tratar melhor. Isso se reflete no aumento da expectativa de vida. É um indicativo claro de que o progresso da cardiologia prolongou a vida das pessoas —ainda que esse ganho venha acompanhado de novos riscos. g1 - A ciência cardiovascular avançou mais rápido do que os hábitos da população? Robson Santos - Muito mais rápido. A ciência correu, mas a conscientização da população ficou para trás. Isso é cultural e também político. Faltam políticas públicas mais contínuas e agressivas de esclarecimento. Campanhas pontuais não dão conta do tamanho do problema. Além disso, existe um lobby muito forte da indústria de ultraprocessados, com alimentos riquíssimos em sal e açúcar, que tornam o ambiente alimentar extremamente hostil à saúde cardiovascular. g1 - Mesmo com tanta informação disponível, por que as pessoas continuam se expondo a esses riscos? Robson Santos - Porque há uma falsa sensação de invulnerabilidade. As pessoas sabem que faz mal, mas acham que “com elas não vai acontecer”. No caso da hipertensão, isso é ainda mais grave, porque a doença quase não dá sintomas. A pessoa mede a pressão, vê que está normal com o remédio e simplesmente abandona o tratamento. g1 - Hoje o brasileiro vive mais. Vive melhor do ponto de vista do coração? Robson Santos - Vive melhor em termos de conforto e condições materiais, sim. Mas vive com risco maior. A qualidade de vida melhorou, mas isso veio acompanhado de “venenos modernos”: mais estresse, mais sedentarismo, mais obesidade. São duas curvas que avançam juntas. g1 - Qual foi o ponto de virada mais importante da cardiologia nesses 40 anos? Robson Santos - Um divisor de águas foi o desenvolvimento dos inibidores da enzima conversora da angiotensina, como o captopril. Essa descoberta mudou completamente a história da hipertensão, da insuficiência cardíaca e do tratamento pós-infarto, ao reduzir o remodelamento do coração e aumentar a sobrevida. É um avanço com raízes na ciência brasileira, que começou ainda com os estudos sobre a bradicinina, no Instituto Biológico, em São Paulo, e culminou no desenvolvimento do captopril décadas depois. g1 - Como explicar o captopril para quem não é da área médica? Robson Santos - Nosso organismo tem um sistema central de controle da pressão arterial, chamado sistema renina-angiotensina. A angiotensina 2, um dos componentes desse sistema, contrai os vasos, retém sódio e água e eleva a pressão. O captopril bloqueia a formação dessa substância. Ao impedir a ação de um vasoconstritor potente, ele faz a pressão cair quando está elevada. É um medicamento que trata a hipertensão, mas não é usado para prevenção em pessoas sem diagnóstico. g1 - Quais foram as principais descobertas do laboratório ao longo desses 40 anos? Robson Santos - Nós estudamos o sistema renina-angiotensina, que funciona como uma espécie de “termostato” da pressão arterial. Durante muito tempo, a medicina enxergava esse sistema quase só pelo lado que faz a pressão subir. O nosso laboratório ajudou a mostrar que ele também tem um lado protetor. Identificamos substâncias produzidas pelo próprio organismo —como a angiotensina (1-7), a alamandina e, mais recentemente, a alamandina (1-5)— que atuam no sentido oposto: ajudam a relaxar os vasos, reduzem inflamação e protegem o coração. Ao revelar esse equilíbrio entre forças que aumentam e forças que protegem, contribuímos para mudar o entendimento da hipertensão e abrir espaço para tratamentos que não se baseiam apenas em “frear” o sistema, mas também em estimular mecanismos naturais de proteção. g1 - Quando o senhor começou a estudar hipertensão, o que a cardiologia ainda não entendia? Robson Santos - Durante muito tempo, esse sistema foi visto de forma muito simplificada. A ideia dominante era que ele servia basicamente para contrair os vasos sanguíneos e elevar a pressão. Com o avanço das pesquisas, ficou claro que ele é bem mais complexo e inclui também componentes com efeitos protetores para o coração e os vasos. Essa mudança de entendimento transformou a forma como a cardiologia enxerga a hipertensão. g1 - Há pesquisas sobre vacinas para controlar a pressão arterial. O senhor vê esse caminho com cautela? Robson Santos - Vejo com bastante cautela. Não sou contra a pesquisa, mas a hipertensão é uma doença crônica que exige capacidade de ajuste fino do tratamento. Quando um paciente usa um medicamento, o médico pode suspender ou ajustar a dose diante de situações específicas, como desidratação ou ondas de calor. No caso de uma vacina, o efeito não é facilmente reversível. Uma vez que o organismo passa a produzir anticorpos, não há como “desligar” essa ação rapidamente. Isso traz riscos que precisam ser muito bem avaliados. g1 - O tratamento da hipertensão hoje é suficiente? Robson Santos - Para a maioria dos casos, sim. As ferramentas atuais permitem controlar mais de 80% dos quadros de hipertensão. O problema maior está na hipertensão resistente e, principalmente, na adesão ao tratamento e no diagnóstico. Ainda há muita gente hipertensa que não sabe que é, e muita gente que abandona o remédio quando se sente bem. g1 - Por que isso é tão perigoso? Robson Santos - Porque a hipertensão lesa silenciosamente os órgãos. Ela leva à hipertrofia do coração, favorece infartos, acidentes vasculares cerebrais, insuficiência renal e está por trás de muitos casos que acabam em hemodiálise. Tratar a hipertensão como algo menor é um erro grave, com consequências enormes ao longo dos anos. g1 - As descobertas do seu laboratório mudaram o tratamento dos pacientes? Robson Santos - Mudaram principalmente o entendimento do sistema cardiovascular. Nosso trabalho ajudou a preparar o terreno para novas ferramentas terapêuticas, ao mostrar que não basta bloquear apenas o “lado ruim” do sistema; é possível estimular vias protetoras. Esse conceito ainda enfrenta resistência da indústria, mas acreditamos que tende a ganhar espaço no futuro. g1 - Depois de 40 anos, qual é o seu maior legado? Robson Santos - Do ponto de vista científico, foi contribuir para ampliar o conhecimento do principal sistema de controle da pressão arterial. Mas talvez o maior legado seja a formação de pessoas. Ver ex-alunos hoje liderando pesquisas no Brasil e no exterior é a maior recompensa dessa trajetória.